sábado, 30 de julho de 2022

educação inclusiva: remediação ou transformação?

A educação não acontece isolada no tempo e no espaço. Ela é produtora e é produzida num contexto historicamente situado, sendo que o atual é de avanço do neoliberalismo enquanto produtor de subjetividades. No que diz respeito à educação escolar, significa que ela é pautada atualmente pelos ditames do mercado, ou seja, são valorizados os sujeitos produtivos, que se adequam ou apresentam potencial de utilidade ao sistema capitalista, os neurotípicos, sem deficiências. 

O que observamos nos últimos anos é que, como característica marcante do neoliberalismo, aqueles sujeitos ou discursos que apresentam-se como contrários a esses imperativos de consumo desenfreado, hiperprodutividade, exploração do sujeito por ele mesmo e gozo ininterrupto, são capturados por esse mecanismo complexo, multifacetado e fluido. Como exemplo, podemos citar o identitarismo, que, ao seu início afirmava-se claramente como uma forma de luta por uma sociedade mais justa, atualmente não se pode dizer o mesmo de forma absoluta. Isso porque as lutas por identidade se tornaram, em boa parte, movimentos de afirmação de diferenças como um objetivo em si mesmos, capturadas por esse mecanismo que torna os movimentos, discursos e pessoas a favor da reprodução do status quo.

Nesse quadro, vale fazermos a pergunta do título: onde se situa a educação inclusiva? Quem mergulha para estudar o assunto vai se deparar com muitos posicionamentos e nuances intrincadas, o que diz que não há um lugar, a priori, para a educação inclusiva. O que faz mais sentido perguntarmos o que leva uma práxis de educação inclusiva ser uma forma de remediação ou um paradigma transformador. O que se pretende remediar ou transformar? Questões amplas e complexas, pois possuem desdobramentos inúmeros. 

Remediar na educação inclusiva pode ser aproximado do próprio uso da palavra em outros contextos: dar um remédio. Só tomamos um remédio quando ficamos doentes. Portanto, uma das facetas da educação inclusiva remediadora é focar a doença. Porém, no campo da educação, não se busca tratar de doenças, isso é feito no campo da saúde. Não se pode dizer que existem doenças na educação, mas sim disputas/encontros de concepções de ser humano, sociedade, cultura. O enfoque na doença, que muitas vezes é tida como sinônimo para deficiência, é individualizador. Nesse enfoque, o que se traz como concepção fundadora é que os indivíduos é que trazem ou não consigo, de acordo com a sua genética ou situação biológica mais ou menos próxima do considerado normal, o potencial de serem bem sucedidos. O contexto em que estão inseridos, o projeto educacional, as histórias de vida, em geral, são deixados do lado de fora. Assim operando, lida-se com sujeitos a-históricos, reduzidos à dimensão biológica-orgânica. 

Educação inclusiva enquanto paradigma de transformação é considerar que a escola é uma instituição, por sua origem, excludente. Com a massificação da escolarização, opera-se um transplante anacrônico de modelos e racionalidades que outrora serviram mais ou menos bem. Atualmente, tais modos de fazer não se mostram efetivos e sim geradores de diversos problemas sociais, prejuízos em larga escala, e patologias para os indivíduos. Inclusão enquanto paradigma se torna então algo a ser pensado enquanto mecanismos de transformação da própria exclusão característica do modelo escolar baseado em séries, aulas, a "cultura do silêncio", o centramento na figura do professor, o aluno enquanto sujeito passivo sem desejo. 


Referências:


LAVAL, C. A escola não é uma empresa.

ROUDINESCO, E. O eu soberano. 



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