O Atendimento Educacional Especializado, bem como o lugar proposto pelo termo "educação especial", são colocados em questão por alguns autores que propõem que a exclusividade do termo "educação inclusiva", que seria o que melhor expressa a proposta de educação para todos não excludente. Porém, essa "educação para todos", em termos de aplicação, nem sempre se verifica, o que resulta, na prática, nas mesmas exclusões que já ocorrem tradicionalmente no âmbito escolar. O que não se pode perder de vista é que a inclusão é um processo multifacetado, complexo e que exige diversos graus e maneiras de intervenção e conhecimentos, Nessa perspectiva, o AEE e a educação especial não vão contra a proposta de educação inclusiva, muito pelo contrário.
Existem estudantes que se beneficiam muito com um atendimento individualizado e o acompanhamento mais específico em período contraturno, modalidade de atendimento que não seria possível em suas turmas regulares. O problema surge quando o AEE e a educação especial são "aplicados" enquanto ferramentas descontextualizdas, padronizadas, dependentes do saber médico e de testes psicométricos. A intervenção descontextualizada não é problema somente nesse contexto, mas em qualquer lugar, quando se trata de pensar uma educação para a emancipação. Daí a importância da reflexão radical (que vai na raiz) do ato educativo.
O AEE e a educação especial, quando operam nessas condições acima citadas, é um potencial acentuador das exclusões e estigmas. Seria necessária uma revisão das bases desse trabalho e as premissas teóricas que as fundamentam.
No nosso trabalho, tomamos como princípios:
. a ação educativa acontece com o estabelecimento de uma relação, que na psicanálise vai ser chamada de "transferência";
. essa relação humana é construída tendo como centro o acesso ao conhecimento pelo estudante
. o acesso a esse conhecimento pode se dar de maneiras diversas e não apenas na forma como é apresentada no ensino regular;
. o estudante que chega ao atendimento possui uma história singular, é atravessado por uma constelação de discursos sociais, sendo eles o médico, psicológico, pedagógico, familiar, e de outras instituições;
. o contexto deve ser lido no sentido de considerar as condições sócio-históricas e econômicas com as quais aquele estudante chegou até ali, o que no ensino público se dá majoritariamente com estudantes oriundos da classe trabalhadora.
Em se tratando de um trabalho com aporte psicanalítico, considera-se que os estudantes são sujeitos de desejo. Isso, em educação, requer considerar a singularidade com que o estudante pode acessar os conhecimentos. A psicanálise oferece um suporte teórico importante a quem atua na educação especial para estar diante de classificações e diagnósticos enquanto formas discursivas, não sem origem social e histórica, podendo realizar um trabalho que não seja barrado por tais significantes, que podem por vezes funcionar como impedimentos ao pensamento educacional. Essa conjunção entre psicanálise e educação pode operar no sentido de resgatar o discurso educacional diante dos inúmeros atravessamentos que fazem parte do cotidiano escolar.
Costuma ser um dizer "de ponta de língua" de todo(a) psicanalista que ele(a) "deve estar à altura da subjetividade de sua época". Por que isso não serviria também aos educadores? Os(as) educadores(as) devem estar à altura da subjetividade de sua época.
Essa afirmação pode ter inúmeros desdobramentos, dentre eles, a noção de que o discurso médico-psiquiátrico adentra cada vez mais os espaços escolares num contexto de neoliberalismo enquanto matriz de produção subjetiva, e se os trabalhadores não sabem operar minimamente diante deles, correm o risco de ficarem reféns do saber técnico do especialista.