domingo, 31 de julho de 2022

O aluno Normal

 Por trás de muitas falas e práticas escolares, existe uma régua que mede o aluno Normal. Porém, ninguém sabe dizer onde está essa régua, onde está essa lista com os tópicos que apontam o que é um aluno normal. 

A invisibilidade dessa régua é que a torna tão presente. É porque ela não é explicita, mas opera a partir de dobras e margens, a partir de discursos sutis que apontam nada menos para a sua métrica, que ela é muito presente como pano de fundo da forma escolar serial, fabril. 

A forma escolar mais praticada é uma condensação de valores. Forma é conteúdo. Ela atua como uma máquina, e quem adentra nela, passa a operar de acordo com seus ditames invisíveis. Invisíveis pois os discursos não condizem com as práticas. E aqui talvez seja um dos pontos que causa tantas patologias sociais e psíquicas no ambiente escolar. Quem adentra na escola geralmente chega ali por motivos considerados nobres e altruístas, de transformação social, de transmissão de valores e cultura considerados bons. Porém, não raro, deparam-se, no ambiente escolar, com um engessamento e pouco espaço para abordagens diferentes daquelas estabelecidas pela própria engrenagem do sistema. 

Referências:

CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. 

Percurso de estudos: Adolescências medicalizadas e educação

Modalidade: à distância

Frequência: quinzenal, encontros com duração de 1h30.

Pilares do estudo: 

. estudaremos as adolescências a partir, principalmente, de uma perspectiva psicanalítica;

. a medicalização na educação

Metodologia:

Leitura de textos, apresentação dos principais pontos, debate entre os participantes e troca de experiências. A sequência dos encontros será apenas uma referência, porém os temas e relevância dos debates surgirão conforme as discussões e interesses dos participantes. Os encontros n]ao serão gravados para manter o sigilo diante da possível exposição de casos.

Objetivos:

Sensibilizar os participantes para algumas especificidades das adolescências, o que pode melhorar as relações humanas e pedagógicas. 

Ampliar os conhecimentos dos trabalhadores da educação diante dos discursos médico-psiquiátrico que são cada vez mais presentes e exigem constante atualização no sentido de compreender o que significam para além da própria indicação classificativa no DSM. 

Público: trabalhadores da educação e demais interessados

Cronograma:

Noção de saúde/doença e sua relação com a educação. O que é saúde? O que é educação?

Adolescências: que fase é essa para a psicanálise?

Medicalização e neuroliberalismo. O que é medicalização? O que é patologização? O que a medicalização tem a ver com o neuroliberalismo?

Diagnóstico enquanto escudo e lista. De onde vêm os diagnósticos? Quem cria as classificações? Quais são os critérios? Principais diagnósticos que surgem na escola.

O lugar dos pais e professores. Os embates acerca de laudos, cotas, direitos. 

Educação, psicanálise e patologização das adolescências. 


Início: primeiro semestre de 2023


Referências:

BIAGINI, H. Neuroliberalismo.

SKLIAR, C. 

VASQUES, C. K. 

NASIO, J-D. Como lidar com um adolescente difícil?

O Atendimento Educacional Especializado frente aos embates discursivos acerca da inclusão

    O Atendimento Educacional Especializado, bem como o lugar proposto pelo termo "educação especial", são colocados em questão por alguns autores que propõem que a exclusividade do termo "educação inclusiva", que seria o que melhor expressa a proposta de educação para todos não excludente. Porém, essa "educação para todos", em termos de aplicação, nem sempre se verifica, o que resulta, na prática, nas mesmas exclusões que já ocorrem tradicionalmente no âmbito escolar. O que não se pode perder de vista é que a inclusão é um processo multifacetado, complexo e que exige diversos graus e maneiras de intervenção e conhecimentos, Nessa perspectiva, o AEE e a educação especial não vão contra a proposta de educação inclusiva, muito pelo contrário.
    Existem estudantes que se beneficiam muito com um atendimento individualizado e o acompanhamento mais específico em período contraturno, modalidade de atendimento que não seria possível em suas turmas regulares. O problema surge quando o AEE e a educação especial são "aplicados" enquanto ferramentas descontextualizdas, padronizadas, dependentes do saber médico e de testes psicométricos. A intervenção descontextualizada não é problema somente nesse contexto, mas em qualquer lugar, quando se trata de pensar uma educação para a emancipação. Daí a importância da reflexão radical (que vai na raiz) do ato educativo. 
    O AEE e a educação especial, quando operam nessas condições acima citadas, é um potencial acentuador das exclusões e estigmas. Seria necessária uma revisão das bases desse trabalho e as premissas teóricas que as fundamentam. 
    No nosso trabalho, tomamos como princípios:
. a ação educativa acontece com o estabelecimento de uma relação, que na psicanálise vai ser chamada de "transferência";
. essa relação humana é construída tendo como centro o acesso ao conhecimento pelo estudante
. o acesso a esse conhecimento pode se dar de maneiras diversas e não apenas na forma como é apresentada no ensino regular;
. o estudante que chega ao atendimento possui uma história singular, é atravessado por uma constelação de discursos sociais, sendo eles o médico, psicológico, pedagógico, familiar, e de outras instituições;
. o contexto deve ser lido no sentido de considerar as condições sócio-históricas e econômicas com as quais aquele estudante chegou até ali, o que no ensino público se dá majoritariamente com estudantes oriundos da classe trabalhadora.

Em se tratando de um trabalho com aporte psicanalítico, considera-se que os estudantes são sujeitos de desejo. Isso, em educação, requer considerar a singularidade com que o estudante pode acessar os conhecimentos. A psicanálise oferece um suporte teórico importante a quem atua na educação especial para estar diante de classificações e diagnósticos enquanto formas discursivas, não sem origem social e histórica, podendo realizar um trabalho que não seja barrado por tais significantes, que podem por vezes funcionar como impedimentos ao pensamento educacional. Essa conjunção entre psicanálise e educação pode operar no sentido de resgatar o discurso educacional diante dos inúmeros atravessamentos que fazem parte do cotidiano escolar. 
Costuma ser um dizer "de ponta de língua" de todo(a) psicanalista que ele(a) "deve estar à altura da subjetividade de sua época". Por que isso não serviria também aos educadores? Os(as) educadores(as) devem estar à altura da subjetividade de sua época. 
Essa afirmação pode ter inúmeros desdobramentos, dentre eles, a noção de que o discurso médico-psiquiátrico adentra cada vez mais os espaços escolares num contexto de neoliberalismo enquanto matriz de produção subjetiva, e se os trabalhadores não sabem operar minimamente diante deles, correm o risco de ficarem reféns do saber técnico do especialista. 



sábado, 30 de julho de 2022

O neuroliberalismo e a ética do mais forte

 "Neuroliberalismo" é o neologismo criado por Hugo Biagini e Diego Fernández Peycheaux para dar conta de moldurar a tendência à produção de uma mentalidade enferma que tenta mesclar a crença num egoísmo saudável como passaporte ao bem-estar comum. 

É interessante notar como o neologismo contém o significante "neuro", o que ligamos com a moda "neuro-tudo" para explicação de diversas áreas do comportamento humano. Seja para mulheres gestantes, bebês, adolescentes, velhos, crianças, hoje em dia tudo se explica por um viés dito científico das "neuro"+ alguma especialidade. Sem querer criticar algo que nem ao menos conheço a fundo (que são as áreas ligadas à neurologia), mas existe aqui um grande cuidado a ser tomado. Essa cautela diz respeito a ideologia de considerar tudo tendo a sua fonte de explicação na ordem biológica (neurológica, mais especificamente). 

O neoliberalismo, que os autores propõem chamar de neuroliberalismo, utiliza como principal arma ideológica o campo da linguagem, produzindo a alienação dos indivíduos perante questões que vão para além do que diz respeito ao particular, o que fica evidente no sucesso das abordagens de auto-ajuda por um lado, e de outro, indicadores sociais alarmantes de crise econômica. 

Objeto a tomado como princípio fundamental para uma teoria de educação emancipatória

O conceito do objeto a é uma formulação de Jacques Lacan para a teoria da psicanálise, o que talvez seja a sua contribuição mais original, dentre as suas demais, que são consideradas releituras de proposições freudianas. 

O desejo é, de forma bastante resumida e simplificada, a busca de um objeto perdido e que, na realidade, nunca é encontrado, porque sempre cambiante. Essa natureza cambiante do desejo é algo que, ao mesmo tempo, causa angústia ao ser humano, e o que o constitui enquanto tal, possibilitando o movimento. O desejo se dirige a algo que não tem substância, mas que toma a forma de objetos temporários, como uma miragem. Esse algo que não tem substância, que é vazio, é tido de forma temporária enquanto objetos concretos, como uma casa própria, um filho, um parceiro, fama, dinheiro etc. Nesse movimento de busca, que por vezes encontra o seu objeto mas vê que não era bem aquilo, é uma insatisfação mais ou menos permanente, que fica como pano de fundo na vida do sujeito e o impele ao agir. Essas formulações aproximam da noção budista sobre o desejo, de que esse nunca é satisfeito, porém, não é possível afirmar que existe consonância entras as duas abordagens (budismo e psicanálise) mas que existem miradas similares para problemas parecidos.

Tendo essa formulação enquanto pano de fundo para a educação, é possível considerar que a abordagem educacional pode dirigir-se pela noção de objeto a. Isso acontece quando o professor (ou, de acordo com a perspectiva teórica, é chamado de tutor, coordenador, curador) não dá respostas prontas, mas suscita questionamentos e motiva a busca por novos aprendizados. Essa busca não pode ser empreendida pelo professor para o aluno, porque isso seria a tentativa de tamponar uma falta que não se esgota. Nesse sentido, a busca pelas respostas deve ser sempre empreendida pelo próprio sujeito que tece a sua pergunta singular, pergunta essa que faz parte de sua história e tem a ver, de certo modo, com a sua trajetória singular. Não é dado a ninguém a não ser o próprio sujeito, a saber de sua própria história e seu desejo. Esse movimento de dessubstancialização do objeto do desejo é que pode ser tido como a base a formulação do conceito de objeto a para Lacan. 


Referências:

VIOLA, D. VORCARO, A. A formulação do objeto a a partir da teorização lacaniana acerca da angústia. http://pepsic.bvsalud.org/pdf/malestar/v9n3/06.pdf


educação inclusiva: remediação ou transformação?

A educação não acontece isolada no tempo e no espaço. Ela é produtora e é produzida num contexto historicamente situado, sendo que o atual é de avanço do neoliberalismo enquanto produtor de subjetividades. No que diz respeito à educação escolar, significa que ela é pautada atualmente pelos ditames do mercado, ou seja, são valorizados os sujeitos produtivos, que se adequam ou apresentam potencial de utilidade ao sistema capitalista, os neurotípicos, sem deficiências. 

O que observamos nos últimos anos é que, como característica marcante do neoliberalismo, aqueles sujeitos ou discursos que apresentam-se como contrários a esses imperativos de consumo desenfreado, hiperprodutividade, exploração do sujeito por ele mesmo e gozo ininterrupto, são capturados por esse mecanismo complexo, multifacetado e fluido. Como exemplo, podemos citar o identitarismo, que, ao seu início afirmava-se claramente como uma forma de luta por uma sociedade mais justa, atualmente não se pode dizer o mesmo de forma absoluta. Isso porque as lutas por identidade se tornaram, em boa parte, movimentos de afirmação de diferenças como um objetivo em si mesmos, capturadas por esse mecanismo que torna os movimentos, discursos e pessoas a favor da reprodução do status quo.

Nesse quadro, vale fazermos a pergunta do título: onde se situa a educação inclusiva? Quem mergulha para estudar o assunto vai se deparar com muitos posicionamentos e nuances intrincadas, o que diz que não há um lugar, a priori, para a educação inclusiva. O que faz mais sentido perguntarmos o que leva uma práxis de educação inclusiva ser uma forma de remediação ou um paradigma transformador. O que se pretende remediar ou transformar? Questões amplas e complexas, pois possuem desdobramentos inúmeros. 

Remediar na educação inclusiva pode ser aproximado do próprio uso da palavra em outros contextos: dar um remédio. Só tomamos um remédio quando ficamos doentes. Portanto, uma das facetas da educação inclusiva remediadora é focar a doença. Porém, no campo da educação, não se busca tratar de doenças, isso é feito no campo da saúde. Não se pode dizer que existem doenças na educação, mas sim disputas/encontros de concepções de ser humano, sociedade, cultura. O enfoque na doença, que muitas vezes é tida como sinônimo para deficiência, é individualizador. Nesse enfoque, o que se traz como concepção fundadora é que os indivíduos é que trazem ou não consigo, de acordo com a sua genética ou situação biológica mais ou menos próxima do considerado normal, o potencial de serem bem sucedidos. O contexto em que estão inseridos, o projeto educacional, as histórias de vida, em geral, são deixados do lado de fora. Assim operando, lida-se com sujeitos a-históricos, reduzidos à dimensão biológica-orgânica. 

Educação inclusiva enquanto paradigma de transformação é considerar que a escola é uma instituição, por sua origem, excludente. Com a massificação da escolarização, opera-se um transplante anacrônico de modelos e racionalidades que outrora serviram mais ou menos bem. Atualmente, tais modos de fazer não se mostram efetivos e sim geradores de diversos problemas sociais, prejuízos em larga escala, e patologias para os indivíduos. Inclusão enquanto paradigma se torna então algo a ser pensado enquanto mecanismos de transformação da própria exclusão característica do modelo escolar baseado em séries, aulas, a "cultura do silêncio", o centramento na figura do professor, o aluno enquanto sujeito passivo sem desejo. 


Referências:


LAVAL, C. A escola não é uma empresa.

ROUDINESCO, E. O eu soberano. 



a escola precisa ser incluída nas transformações sociais

 defender o caráter público da educação não passa apenas pelas políticas em ambito macro, mas pelas micropolíticas, no cotidiano.  com a pro...