sábado, 30 de julho de 2022

Objeto a tomado como princípio fundamental para uma teoria de educação emancipatória

O conceito do objeto a é uma formulação de Jacques Lacan para a teoria da psicanálise, o que talvez seja a sua contribuição mais original, dentre as suas demais, que são consideradas releituras de proposições freudianas. 

O desejo é, de forma bastante resumida e simplificada, a busca de um objeto perdido e que, na realidade, nunca é encontrado, porque sempre cambiante. Essa natureza cambiante do desejo é algo que, ao mesmo tempo, causa angústia ao ser humano, e o que o constitui enquanto tal, possibilitando o movimento. O desejo se dirige a algo que não tem substância, mas que toma a forma de objetos temporários, como uma miragem. Esse algo que não tem substância, que é vazio, é tido de forma temporária enquanto objetos concretos, como uma casa própria, um filho, um parceiro, fama, dinheiro etc. Nesse movimento de busca, que por vezes encontra o seu objeto mas vê que não era bem aquilo, é uma insatisfação mais ou menos permanente, que fica como pano de fundo na vida do sujeito e o impele ao agir. Essas formulações aproximam da noção budista sobre o desejo, de que esse nunca é satisfeito, porém, não é possível afirmar que existe consonância entras as duas abordagens (budismo e psicanálise) mas que existem miradas similares para problemas parecidos.

Tendo essa formulação enquanto pano de fundo para a educação, é possível considerar que a abordagem educacional pode dirigir-se pela noção de objeto a. Isso acontece quando o professor (ou, de acordo com a perspectiva teórica, é chamado de tutor, coordenador, curador) não dá respostas prontas, mas suscita questionamentos e motiva a busca por novos aprendizados. Essa busca não pode ser empreendida pelo professor para o aluno, porque isso seria a tentativa de tamponar uma falta que não se esgota. Nesse sentido, a busca pelas respostas deve ser sempre empreendida pelo próprio sujeito que tece a sua pergunta singular, pergunta essa que faz parte de sua história e tem a ver, de certo modo, com a sua trajetória singular. Não é dado a ninguém a não ser o próprio sujeito, a saber de sua própria história e seu desejo. Esse movimento de dessubstancialização do objeto do desejo é que pode ser tido como a base a formulação do conceito de objeto a para Lacan. 


Referências:

VIOLA, D. VORCARO, A. A formulação do objeto a a partir da teorização lacaniana acerca da angústia. http://pepsic.bvsalud.org/pdf/malestar/v9n3/06.pdf


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