sábado, 8 de outubro de 2022

inclusão: subtextos e notas de rodapé numa terra de ninguém

O território da educação é de todos porém o da educação especial não o é. Existe uma especificidade, uma epistemologia. Uma não, mais correto seria dizer várias, em jogo. Concorrem nesse campo epistemes oriundas da medicina, psicologia, pedagogia. 
Sendo o poder médico muito influente na sociedade em geral, ao passo que o discurso psicológico não raro se situa como um apêndice da medicina quando reforça processos de medicalização, a pedagogia encontra-se como discurso "sem dono", sem força. 
A inclusão, como se configura em boa parte, é um subtexto da educação, é um puxadinho, um cosmético, algo que está a mais, que poderia não existir, que só deixa os alunos incluídos mais acomodados, que perturba a ordem estabelecida e como as coisas sempre foram (e sempre serão). É uma nota de rodapé no fluxo normal das coisas, é algo que não dá lucro, é o lugar de onde não saem os alunos que ganham prêmios, olimpíadas, medalhas. 
Notas de rodapé são passadas por cima, incomodam por terem pequenas letras, por estarem fora do texto principal, por estarem deslocadas do restante mais destacado. O leitor precisa procurar a nota de rodapé, qual seu número correspondente. Porém, é ali que se encontram algumas informações que especificam o texto geral, coisas que passariam batido mas que por vezes mudam todo sentido, acrescentam algo a mais. Nem todos lêem as notas de rodapé. Quem tem pressa não lê. Quem lê por obrigação não lê. Ou supõe que já sabe o que vai estar escrito.
Numa prática educativa dominada pela lógica neoliberal, não há espaço para educação especial inclusiva, não há espaço para o discurso pedagógico. Só há educação bancária, há exclusão daquilo que foge à norma, há a afirmação do mesmo. 

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